A Psicodelia no Brasil dos 60 & 70


A PSICODELIA DOS 60 & 70 NO BRASIL, DA GARAGEM ÀS MISTURAS REGIONAIS

Por | Fernando Rosa

A psicodelia se fez presente no rock nacional com suas guitarras distorcidas e letras lisérgicas desde o final dos anos sessenta, desdobrando-se em som progressivo e outras misturas afins até a primeira metade dos anos setenta, incorporando inclusive as sonoridades regionais, especialmente a nordestina. Enfrentando toda sorte de preconceito, o gênero contribuiu para alargar os horizontes da música jovem brasileira, cujas estruturas conservadoras haviam sido abaladas pouco tempo antes pelo som de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat e Os Mutantes, no movimento batizado de Tropicalismo. Sem apelo comercial, o som psicodélico ficou restrito a grupos mais radicais, ao público mais descolado e sintonizado com o movimento hippie e a poucas gravações, em raros e valiosos lps e compactos.

As primeiras manifestações psicodélicas ocorreram em São Paulo, por meio de grupos como The Beatniks, Os Baobás e The Galaxies, que introduziram em seus repertórios clássicos do gênero produzido nos Estados Unidos, especialmente. The Beatniks, grupo de palco do programa Jovem Guarda (Roberto Carlos) na TV Record, aliado ao agitador cultural e artista plástico Antônio Peticov, produziu ótimos compactos, com covers de Gloria (Them), Fire (Jimi Hendrix) e Outside Chance (The Turtles). Os Baobás, que teve Liminha entre seus membros, também destacou-se por meio de cinco ótimos compactos e um LP, onde registraram sua paixão por Doors, Jimi Hendrix e Zombies, entre outros. Enquanto The Galaxies, misto de paulistas, americanos e ingleses, deixaram um raro e clássico álbum gravado em 1968, contendo canções originais e covers para Love, Donovan e outros ícones da geração flower power.

Ainda nos anos sessenta, outras bandas como The Beat Boys, Os Brazões e Liverpool produziram obras geniais que ficaram na memória de quem viveu a época. The Beat Boys, depois de acompanhar Caetano Veloso em Alegria Alegria e Gilberto Gil em Questão de Ordem, gravou um excelente álbum, lançado em 1968, que contém alguns clássicos da psicodelia nacional, como Abrigo de Palavras em Caixas do Céu. Os Brazões também gravaram apenas um ótimo e ultra-tropicalista lp, que contém Gotham City (regravada pelo Camisa de Vênus, nos anos oitenta), Pega a Voga Cabeludo (de Gil), Momento B8 (Brazilian Octopus) e Planador (Liverpool), entre outras pérolas sonoras. Já o grupo gaúcho Liverpool é responsável por um dos melhores álbuns gravados nos anos sessenta, o LP Por Favor, Sucesso, que contém as clássicas Impressões Digitais, Olhai os Lírios do Campo e Voando, entre outras.

Menos conhecidos, grupos como Spectrum, Bango, Módulo 1000, Equipe Mercado e A Tribo também marcaram com suas misturas sonoras o início dos anos setenta. O grupo Spectrum, de Nova Friburgo, com a trilha sonora do filme Geração Bendita, produziu um dos mais raros e desconhecidos discos de psicodelia dos anos setenta, com qualidade internacional, e ainda atual. O carioca Módulo 1000, por sua vez, marcou o início da década de setenta com seu som psicodélico-progressivo, registrado no disco Não Fale Com Paredes, outro clássicos do rock nacional de todos os tempos, relançado em CD. A Tribo, com Joyce, Toninho Horta e outros músicos que depois brilharam na MPB, e Equipe Mercado, tendo à frente a dupla Diana e Stull, transitaram entre a influência roqueira e as sonoridades regionais, deixando algumas poucas gravações.

A partir dessas primeiras experiências, e incorporando o som progressivo, inúmeros grupos transportaram a juventude brasileira para espaços mais livres e criativos, além dos limites impostos pela censura ditatorial. Apoiados na riqueza musical nacional, os grupos misturaram rock, tropicalismo, barroco, jazz, erudito, som oriental, música regional e tudo o mais disponível para criar um dos universos sonoros mais criativos do planeta, naquele momento. Grupos como A Barca do Sol, Som Nosso de Cada Dia, Moto Perpétuo, Som Imaginário, Terreno Baldio, Recordando o Vale das Maçãs, Soma, Veludo, Vímana e Utopia - uns mais conhecidos, outros ainda obscuros para a grande maioria - deram a sua contribuição de ousadia e de inventividade sonora e poética para a história do rock brasileiro.

Ainda, em meados dos anos setenta, Lula Côrtes, Zé Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Paulo Raphael, especialmente, deixaram a marca de uma nova e delirante mistura, que resultou na posterior invasão nordestina. Em 1972, com participação do maestro Rogério Duprat, Alceu Valença e Geraldo Azevedo produziram um disco em parceria, que trazia influências pós-tropicalistas, rock and roll e sonoridades nordestinas, que antecipou o clássico Paêbirú, O Caminho do Sol - raro e ultrapsicodélico álbum duplo, gravado em 1974, sob o comando de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Na seqüência, transitando para a afirmação dos ritmos mais regionais, Alceu Valença, Zé Ramalho e o grupo Ave Sangria (de Paulo Raphael), especialmente, ainda produziram peças com viés psicodélico, como Vou Danado Pra Catende (Alceu Valença), A Dança das Borboletas (Zé Ramalho) e Momento na Praça (Ave Sangria).

AS BANDAS E ARTISTAS

Apresentamos aqui uma relação das principais bandas e intérpretes que fizeram a história da psicodelia brasileira, nos anos sessenta e setenta. Os verbetes são sintéticos, e alguns deles foram publicados originalmente na revista ShowBizz (de novembro/2000).

THE BEATNIKS
1968 | Complete Mocambo Singles
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Legenda do rock paulistano, The Beatnkis foi o grupo de palco do programa Jovem Guarda e, ao mesmo tempo, responsável por surpreendentes compactos garageiro-psicodélicos. Entre 67 e 68, gravou quatro disquinhos pelo selo Rozemblit contendo covers para Turtles (Outside Chance), Them (Gloria) e Jimi Hendrix (Fire), entre outros. Em suas diversas formações, o grupo contou com Bogô, Regis, Nino, Márcio, Mário e Norival. Antônio Peticov produzia as capinhas psicodélicas da banda.

CÓDIGO 90
1967 | Single
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Banda paulistana formada em 67 pelo ex-Top Sounds e Loupha, Marcos 'Vermelho' Ficarelli (guitarra), Mário Murano (teclado), Pedro Autran Ribeiro (vocal), Sérgio Meloso (bateria) e Vitor Maulzone, além do guitarrista Tuca. Agitaram as domingueiras do Clube Pinheiros, em São Paulo, com apresentações psicodélicas, e deixaram apenas um raro compacto pelo selo Mocambo/Rozenblit - Não Me Encontrarás/Tempo Inútil (67).

SERGUEI
1966-1975 | Singles
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Com visual/postura rocker-hippie e uma discografia dispersa em raros compactos, Serguei é um ser psicodélico por natureza. Em 67, gravou Eu Sou Psicodélico, As Alucinações de Serguei e o mix de rock-Jovem Guarda-protesto chamado Maria Antonieta Sem Bolinhos. Em 69, com a banda The Cougars, gravou Alfa Centauro, um flerte com o tropicalismo, sem perder a 'acidez'. Ouriço e Burro-Cor-de Rosa também são clássicos de sua discografia e da psicodelia nacional.

OS BAOBÁS
1968 | Os Baobás
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Grupo que antecipou a chegada do hit Light My Fire (The Doors) no Brasil, em gravação que contou com o futuro Mutantes e produtor Liminha no baixo. Inicialmente beat, enveredou pela psicodelia clássica "importada", que resultou na gravação do único álbum em 68, contendo diversos covers (entre eles, Oranges Skies, do Love), pelo selo Rozemblit. Também lançaram cinco compactos, com destaque para a versão de Paint It Black/Pintada de Preto (The Rolling Stones). O grupo tocou com Ronnie Von, com quem gravou um compacto (Menina Azul) e flertou com o tropicalismo, acompanhando Caetano Veloso em shows, em substituição aos Beat Boys. A primeira formação do grupo contou com Ricardo Contins (guitarra), Jorge Pagura (bateria), Carlos (baixo), Renato (guitarra solo) e Arquimedes (pandeiro). Também passaram pelas diversas formações da banda Rafael Vilardi (ex-O'Seis), Guga, Nescau, Tuca e Tico Terpins (depois Joelho de Porco).

BEAT BOYS
1968 | Beat Boys
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Um misto de brasileiros e argentinos radicados em São Paulo, o grupo Beat Boys ficou conhecido por acompanhar Caetano Veloso em Alegria Alegria, no Festival da Record e em disco. Integravam o grupo Cacho Valdez (guitarra), Willy Werdaguer (baixo), Tony Osanah (vocal e pandeiro), Marcelo (bateria). Toyo (baixo e teclados) e Daniel (outra guitarra). Gravou um único álbum pela RCA Victor, lançado em 68, contendo Abre, Sou Eu (Billy Bond) e covers radicais como Wake Me, Shake Me (The Blues Project).

THE GALAXIES
1968 | The Galaxies
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O garageiro The Galaxies era formado pelo inglês David Charles Odams (guitarra e vocal), pela americana Jocelyn Ann Odams (maracas e vocal) e pelos brasileiros Alcindo Maciel (guitarra e vocal) e José Carlos de Aquino (guitarra e bateria. Lançado pelo selo Som Maior, o álbum contém cover para Orange Skies (Love) e composições próprias, como Linda Lee, de David e Carlos Eduardo Aun, o Tuca, ex-Lunáticos, e depois Baobás, que também toca no disco.

SUELY E OS KANTIKUS
1968 | Single
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Grupo formado pela ex-O'Seis (o pré-Mutantes), Suely Chagas, mais os guitarristas Lanny Gordin e Rafael Vilardi (também do pré-Mutantes). O grupo ganhou o Festival Universitário de São Paulo, em 1968, com a música Que Bacana. Na linha tropicalista, gravou um único compacto (Que Bacana/Esperanto), que traz Lanny em um dos seus melhores e mais radicais trabalhos de fuzz-guitar.

BRAZILIAN OCTOPUS
1969 | Brazilian Octopus
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Apesar da orientação jazística, com pitadas de bossa-nova, o grupo pincelava seu som com climas tropicalistas-psicodélicos (incluindo a logotipia do nome na capa do único álbum gravado). A distorção ficava por conta de Lanny Gordin e sua guitarra fuzz e seu wah-wah em canções como As Borboletas e Momento B/8 (parceria do grupo com Rogério Duprat) Integravam o grupo, entre outros, o multi-instrumentista Hermeto Paschoal e o guitarrista Olmir 'Alemão' Stocker.

LIVERPOOL
1969 | Por Favor, Sucesso
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Com atitutude e visual "Jefferson Airplane", e responsável por verdadeiras viagens sonoras nos palcos, transitou na fronteira do tropicalismo com a psicodelia universal, secundando os Mutantes em criatividade e, especialmente, qualidade instrumental. Integravam o grupo, Mimi Lessa (guitarra), Edinho Espíndola (bateria), Fughetti Luz (cantor), Pekos (baixo) e Marcos (base). Gravou o único álbum em 69, pelo selo Equipe, contendo elaboradas canções com fuzz-guitar no talo, a exemplo de Voando, Impressões Digitais e Olhai Os Lírios do Campo. No início dos anos 70, ainda gravou mais dois compactos, um (duplo) para a trilha do filme Marcelo Zona Sul, e outro, sob o nome de Liverpool Sound, com as músicas Fale e Hei Menina. Com o fim do grupo, seus integrantes, menos Pekos, juntam-se ao ex-A Bolha, Renato Ladeira, para formar o Bixo da Seda, que retornou ao rock and roll "stoniano" das origens da banda.

MUTANTES
1971 | Jardim Elétrico
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Um dos mais importantes grupos da história do rock, não apenas nacional, mas mundial, não ficando nada a dever aos grandes ícones da revolução musical dos anos sessenta, até mesmo aos Beatles, em vários momentos de sua obra. Deixaram pelo menos três discos clássicos da discografia brasileira e, outra vez, mundial, com uma riqueza de idéias, de arranjos e de soluções instrumentais, que surpreendem até hoje, e provocam uma "redescoberta" por parte dos mais importante músicos nacionais e estrangeiros. Apesar disso, permaneceram por um bom tempo ignorados, até serem relançados ainda em vinil pelo selo paulistano Baratos Afins, em meados dos anos oitenta. São donos de uma infindável coleção de hits e, também, de um baú de raridades, que, além do já lançado Tecnicolor (originalmente gravado em setenta, mas inédito até 2000), renderiam, pelo menos, um bom cd simples.

RONNIE VON
1968 | Ronnie Von
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Iniciou a carreira cantando Beatles, e com seu terceiro disco, que tem participação dos Mutantes, Beat Boys e arranjos de Rogério Duprat, acabou virando uma espécie de laboratório experimental do tropicalismo. Mas sua mais importante contribiuição a história da psicodelia nacional é o o disco lançado em 68, com arranjos de Damiano Cozzela, que traz os mais radicais experimentos sonoros daquela segunda metade de década, somente igualados ou superados pelos Mutantes. É neste disco que está a clássica Silvia, 20 Horas Domingo, recentemente regravada pelo grupo gaúcho Vídeo Hits, com participação do próprio cantor. Ronnie Von ainda gravou mais dois álbuns com essa orientação: A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais e A Máquina do Tempo, o último antecipando o rock progressivo, que chegaria ao Brasil um pouco mais tarde. Atualmente, Ronnie Von tem sido alvo de um revival que, definitivamente, resgata a sua verdadeira importância na história do rock nacional.

OS BRAZÕES
1969 | Os Brazões
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Grupo responsável por uma das melhores fusões de tropicalismo com psicodelia universal, festejada por Nelson Motta, na contra-capa do seu único álbum, lançado 70. Integravam os Brazões, Miguel (guitarra base), Eduardo (bateria), Roberto (guitarra solo) e Taco (baixo). Tornaram-se conhecidos por acompanhar Gal Costa em shows e defender Gothan City, de Macalé e Capinam, no IV Festival Internacional da Canção Popular, em 69 (a mesma que ganhou cover punk do Camisa de Vênus, nos anos oitenta). Lançaram um dos principais trabalhos da discografia psico-tropicalista, recheado de guitarras fuzz, contendo versões para clássicos como Pega a Voga Cabeludo, Volkswagen Blues e Modulo Lunar. Miguel, depois Miguel de Deus, entrou de cabeça na onda funk, gravando o álbum Black Soul Brothers (77).

O BANDO
1969 | O Bando
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Outra banda que misturou MPB, música regional e pitadas de psicodelia. Em 69, lançou seu único álbum, com arranjos dos maestros Rogério Duprat, Damiano Cozzela e Júlio Medaglia. Em clima tropicalista, cantam Jorge Ben, Caetano Veloso e os novatos gaúchos Hermes Aquino e Lais Marques. Integravam O Bando, Diógenes, a cantora Marisa Fossa (que depois gravou com Duprat), Américo, Dudu, Emílio, Paulinho e Rodolpho.

BLOW UP
1969 | Blow Up
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Nascido em Santos, com o nome The Black Cats, começou tocando rock instrumental, passou pela beatlemania e, no final dos anos 60, acabou na psicodelia. Inspirado no filme homônimo de Antonioni, trocou de nome e gravou dois álbuns com a nova orientação: o primeiro em 69, e o segundo em 71, chamado apenas Blow Up, mas também conhecido como Expresso 21. Integravam a primeira formação Robson (guitarra solo), Hélio (bateria), Tivo (baixo e vocal), Zé Luis (vocal), Nelson (teclado) e Adalberto (guitarra base).

OS LEIF'S
1970 | Os Leif's
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Bônus: Os Minos | Singles (1967-1968)

Histórico grupo baiano formado pelo guitarrista Pepeu Gomes, seu irmão Jorginho, mais Carlinhos e Lico, que acompanhou Caetano Veloso e Gilberto Gil no show-disco Barra (69). Também foi responsável pelo acompanhamento psico-tropicalista em diversas faixas do primeiro álbum dos Novos Baianos - Ferro na Boneca (70), com destaque para a fuzz-guitar de Pepeu. Antes, formavam Os Minos, que gravou dois compactos, pelo selo Copacabana, em 67.

SOM IMAGINÁRIO
1970 | Som Imaginário
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Outro grupo que passeou com maestria nas fronteiras da psicodelia e do progressivo com a moderna MPB e toques de jazz, produzindo clássicos do gênero como Morse, Super God, Cenouras (… "vou plantar cenouras na sua cabeça"). Integraram o grupo em suas várias formações mestres do instrumento, como Wagner Tiso (teclados), Luís Alves (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria), Tavito (violão), Frederyko (guitarra), Zé Rodrix (teclados, voz e flauta), Laudir de Oliveira (percussão), Naná Vasconcelos (percussão) e, ainda, ocasionalmente, Nivaldo Ornelas (sax) e Toninho Horta (guitarra). Gravaram os discos Som Imaginário (70), Som Imaginário - 2 (71) e Matança do Porco (73). Os três lps foram relançados conjuntamente em cd, em 98, pela gravadora EMI, enquanto a música Super-God (do primeiro lp) foi incluida na coletânea Love, Peace & Poetry - Latin American Psychedelic Music, lançada pelo selo alemão Q.D.K Media.

A BOLHA
1973 | Um Passo À Frente
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Legendária banda do rock nacional, formada em 65, no Rio de Janeiro, pelos irmãos Cesar e Renato Ladeira (guitarra e teclados), mais Lincoln Bittencourt (baixo) e Ricardo (bateria), gravou um único compacto nesta fase, com o nome The Bubbles, em 66. No final da década, assumiram o nome A Bolha e orientaram seu som para o hard rock, inicialmente, e depois para climas progressivos-psicodélicos. Em 1970, acompanharam Gal Costa na excursão a Portugal e assistiram ao festival da Ilha de Wight, na Inglaterra. Com nova formação - Renato (teclados), Pedro Lima (guitarra), Arnaldo Brandão (baixo) e Gustavo Schroeter (bateria), gravou o clássico compacto Sem Nada/18:30 (Os Hemadecons Cantavam em Coro Chôôôôô ...), em 1971, e mais dois álbuns - Um Passo à Frente (73) e É Proibido Fumar (77). O primeiro álbum já ganhou reedição em cd, que traz ainda o segundo compacto.

O TERÇO
1975 | Criaturas da Noite
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Um dos mais expressivos grupos dos anos 70, O Terço transitou por todas as praias, indo do folk-rock ao progressivo, sempre com elementos psicodélicos. Originalmente formado por Sérgio Hinds, Jorge Amiden, Vinicius Cantuária, gravou dois álbuns com orientação psicodélica (o primeiro) e progressiva (o segundo). Em 75, depois de alguns compactos, e incorporando o folk e sonoridades regionais, o grupo gravou Criaturas da Noite, com arranjos de Rogério Duprat e capa de Antônio Peticov. Na mesma época, com as mesmas bases instrumentais, mas com vocais em inglês, o álbum foi lançado na América Latina e na Europa (no Brasil, saiu apenas um compacto com Criaturas da Noite/Queimada - Creatures of Night/Shining Days, Summer Nights). O Terço ainda gravou outro clássico da discografia roqueira nacional, o álbum Casa Encantada (lançado em um "dois em um" junto com Criaturas da Noite).

SPECTRUM
1971 | Geração Bendita
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Um dos mais raros grupos de psicodelia do Brasil, formado eventualmente pelos atores e participantes do filme Geração Bendita, dirigido por Carlos Bini e rodado em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 1971. Denominado Spectrum, o grupo integrado pelos músicos/atores Toby, Fernando, Caetano, Serginho e David gravaram o disco Geração Bendita, com letras falando do clima do filme e da época e guitarras distorcidades. Lançado no mesmo ano, o disco é uma das peças mais raras da discografia do rock nacional, com edição apenas no exterior.

EQUIPE MERCADO
1971 | Singles
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1972 | Diana & Stull | Single | Download

Liderado pela dupla Diana & Stull, agitavam a cena carioca com seu rock psicodélico no início dos anos 70. Também integravam o grupo, Leugruber e Ricardo Guinsburg (guitarras, violões e vocais), Carlos Graça (bateria) e Ronaldo Periassu (percussão e texto). Participaram do show 'Betty Faria, Leila Diniz e o Mercado Na Deles', dirigido por Neville D'Almeida, com texto de Luis Carlos Maciel (editor do Rolling Stone). Participaram de coletânea ao lado de Som Imaginário, Módulo 1000 e Tribo, com a música Marina Belair.

A TRIBO
1969-1971 | Joyce & A Tribo | Coletânea
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Outro grupo que transitou entre MPB, jazz e sonoridade regionais, com roupagem psicodélica. Integravam o grupo os músicos Toninho Horta, Joyce, Novelli, Hélcio Milito, Nelson Angelo e Naná Vasconcelos. O grupo gravou as músicas "Kirye" e "Peba & Pebó", presentes na coletânea lançada pela Odeon, ao lado dos grupos Módulo 1000, Equipe Mercado e Som Imaginário.

BANGO
1971 | Bango
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Um dos raros grupos contemporâneos que demonstrou explícita influência dos Mutantes, que pode ser conferida em seu único álbum (Musidisc, 71). Som pesado, fuzz-guitar e letras viajandonas produziram um som com qualidade internacional. Seus integrantes - Aramis, Sérgio, Elydio e Roosevelt - eram oriundos do grupo carioca de Jovem Guarda, Os Canibais, autor de um ótimo disco (68), contendo covers de Turtles, Outsiders (EUA) e Turtles.

MÓDULO 1000
1970 | Não Fale com Paredes
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Grupo de hard-psicodélico-progressivo formado no início dos anos setenta, considerando internacionalmente um dos melhores do gênero, ao lado do também carioca Spectrum. Integravam o grupo Luis Paulo (órgão, piano, vocal), Eduardo (baixo), Daniel (guitarra, violão, vocal) e Candinho (bateria). Gravou um único lp chamado Não Fale Com Paredes, pelo selo Top Tape, em 71, e alguns poucos compactos. O lp original, incluindo a capa em três partes, foi relançado quase anonimamente pelo selo Projeto Luz Eterna (98). Em setembro de 2000, o álbum também ganhou reedição em vinil na Alemanha, novamente com reprodução integral da arte original. A música Lem Ed Êcalg (Mel de Glacê, ao contrário) ainda foi incluída na coletânea de bandas psicodélicas latinas Love, Peace & Poetry, ao lado do Som Imaginário.

MATUSKELA
1973 | Matuskela
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Grupo brasiliense liderado por Anapolino (Lino), mais Didi, Toninho Terra, Zeca da Bahia e Vandão, que fez grande sucesso local no início dos anos setenta. Gravaram um lp chamado Matuskela, pelo selo Chantecler, com sonoridade folk-psicodélica, destacando-se a canção A Idade do Louco, de Zeca da Bahia e Clodo, que depois fez parte do trio Clodo, Clésio & Climério. A capa do álbum, com o grupo sentado em uma gigante mão de pedra, é outra raridade da iconografia nacional.

DAMINHÃO EXPERIÊNCIA
1974 | Planeta Lamma
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Autodefinindo-se como "doidão" e influenciado por Jimi Hendrix, produziu raros e surpreendentes discos, misturando psicodelia, blues, sons afro-orientais, guitarras "Frank Zappa" e letras absurdas e incompreensíveis. Lançou seu primeiro disco em 74, intitulado Damião Experiência no Planeta Lamma, que abriu caminho para outras clássicas raridades, como Damião Experiença Chupando Cana Verde no Planeta Lamma e Em Boca Calada Não Entra Mosca, Só Felicidade.

LULA CÔRTES & ZÉ RAMALHO
1975 | Paêbirú
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Em parceria, a dupla produziu a síntese mais alucinada do que se poderia chamar de psicodelia brasileira: o álbum duplo Paêbirú (O Caminho do Sol), que mistura sonoridades regionais, experimentalismo tropicalista e influência do rock internacional. Solo, Lula Côrtes gravou em 73, o também clássico Satwa, com participação de Lailson e do guitarrista Robertinho de Recife, onde repete a explosiva mistura em canções com nomes como Valsa dos Cogumelos ou Alegro Piradíssimo. Zé Ramalho, por sua vez, cinco anos depois, também lançou Avohay reverberando a já fora de moda psicodelia em canções como A Dança das Borboletas. Um álbum clássico, ainda por ser devidamente incluido entre as principais manifestações da mais radical psicodelia nacional e mundial. Exceto Avohay, os dois discos foram lançados de forma alternativa, por selos regionais.

FLAVIOLA E O BANDO DO SOL
1974 | Flaviola e o Bando do Sol
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Outro representante da geração nordestina pós-tropicalismo, que teve em Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, sua expressão mais radical. Também pernambucano, Flaviola e o Bando do Sul gravou apenas um álbum, lançado pelo selo local Solar, em 1974. Com base em ritmos regionais, produziram um raro mix de folk-rock-psicodelia, que permanece com extrema atualidade. Instrumental rico, na base de violões, violas, guitarras, flautas e percussão.

GRUPO SOMA
1971-1974 | Singles
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Bônus: The Outcasts

Trio formado pelo ex-The Outcasts, Bruce Henry (baixo), mais Jaime Shields (guitarra), Alírio Lima (bateria e percussão) e Court (vocal e flauta) - ou seja, Richard Court, o futuro Ritchie. Participaram do lp O Banquete dos Mendigos, gravado ao vivo em 1974, em comemoração dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com a música P.F., com letras em inglês. O grupo ainda gravou mais quatro músicas, que integram a obscura coletânea Barbarella, lançada em 1971.

A BARCA DO SOL
1976 | Durante O Verão
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Em meados dos anos setenta, a Barca do Sol botou pra quebrar na cena underground, produzindo uma refinada mistura de MPB, sonoridades progressivas/psicodélicas, instrumental quase barroco e poesia (Geraldinho Carneiro). A apresentação das músicas do lp Durante o Verão, em forma de cardápio, define o clima da Barca do Sol: O Banquete (sal de frutas, Sargent Pepper's, sopa de cabeça de bode) … Beladonna, Lady od The Rocks (cogumelos, candomblé, corações solitários) … Espécie de padrinho do grupo, Egberto Gismonti produziu o primeiro álbum, que introduzia o uso de sintetizador em duas faixas, novidade na época. A Barca do Sol gravou três discos: A Barca do Sol (74), Durante o Verão (76) e Pirata (79), os dois primeiros reeditados no formato dois em um. A Barca do Sol, entre 74 e 81, contou com Jacques Morelembaum, Nando Carneiro, os irmãos Muri Costa e Marcelo Costa, Beto Resende, Marcelo Bernardes, Alan Pierre e David Ganc, além de Stull e Richard Court, o Ritchie.

MOTO PERPÉTUO
1974 | Moto Perpétuo
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Liderado pelo ex-Brazilian Boys, Guilherme Arantes, que depois fez sucesso como compositor e intérprete solo, gravou um álbum com forte influência do psicodélico-progressivo na linha "Yes". Integravam o grupo, além de Arantes (teclados e vocal), Egydio Conde (guitarra solo e vocais), Diógenes Burani (percussão e vocais), Gerson Tatini (baixo e vocal) e Claudio Lucci (violão, violoncelo, guitarra e vocal). O disco tem produção de Pena Schmit.

PERFUME AZUL DO SOL
1974 | Nascimento
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Grupo paulista formado por Ana (voz e piano), Benvindo (voz e violão), Jean (voz e guitarra) e Gil (bateria e vocal). Com visual hippie e psicodelia derivada de ritmos e instrumental regionais, gravaram um único álbum - Nascimento -, pelo selo Chantecler, em 1974. O baixista Pedrão, depois integrou o Som Nosso de Cada Dia, ao lado do ex-Íncríveis, Manito.

CASA DAS MÁQUINAS
1975 | Lar das Maravilhas
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Transitando entre o glam e o hard rock, o grupo Casa das Máquinas gravou o álbum Lar das Maravilhas (75), um clássico do mix psico-progressivo nacional. Liderado pelo ex-baterista dos Incríveis, Netinho, o Casa contava ainda com o ex-Som Beat, Aroldo Santarosa, Pisca, Carlos Geraldo, Marinho, Marinho II, Simba.O futuro vocalista do Golpe de Estado, Catalau participava do grupo, dividindo a autoria de várias canções.

AVE SANGRIA
1975 | Ave Sangria
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Na onda da "invasão nordestina", o Ave Sangria foi uma das primeiras e mais radicais bandas, misturando sonoridades regionais, blues e rock com roupagem psicodélica. Formada por Marco Polo (vocais), Almir (baixo), Israel Semente (bateria), Juliano (percussão), contava ainda com a presença de dois grandes guitarristas: Ivson Wanderley (Ivinho), que também gravou um raro álbum de viola ao vivo no Festival de Montreaux, e Paulo Raphael, que depois tocou com Alceu Valença. A banda gravou apenas um luminoso e instigante álbum, destacando as faixas Dois Navegantes, Momento na Praça, Cidade Grande e a instrumental Sob o Sol de Satã. Lançado pelo selo Continental em 75, o álbum Ave Sangria foi reeditado em vinil em 90 (pela Baratos Afins), mas permanece inédito no formato digital. Ainda por ser redescoberto em toda sua beleza, o álbum tem uma das mais criativas capas da iconografia roqueira nacional (Sérgio Grecu e Equipe).

UTOPIA
197? | Singles
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Legenda do rock rock gaúcho, que agitou a cena local em meados dos anos setenta. Misturando sonoridades regionais, músicas árabe e folk rock, realizou shows memoráveis na capital gaúcha. Integravam o grupo Bebeto Alves - que desenvolveu carreira solo - (guitarra, viola de 12 e flauta), Ricardo Frota (violino) e Ronald Frota (violões). Deixaram apenas registros radiofônicos (na legendária rádio Continental), tendo um deles - Coração de Maçã, resgatado no cd A Música de Porto de Alegre.

SOM NOSSO DE CADA DIA
1974 | Snegs
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Liderado pelo multi-instrumentista Manito, ex-integrante do grupos Os Incríveis (antes, The Clevers), o Som Nosso de Cada Dia foi um dos expontes do som psicodélico-progressivo dos anos setenta. Ao lado de Manito estavam Pedrinho (baterial e vocal), Pedrão (baixo, viola e vocal). Além de Marcinha (coro), ainda participaram do grupo Egídio (guitarra), Dino Vicente (teclados) e Rangel (percussão). O grupo gravou dois lps, Snegs (1975) e Som Nosso de Cada Dia (1976).

VELUDO
1975 | Ao Vivo
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Uma das legendas do hard rock-progressivo nacional, formado por volta de 1974 por Nelsinho Laranjeiras (baixo), Elias Mizrahi (teclados), Paul de Castro (guitarra) e Gustavo Schroeter (bateria). Responsável por fantásticas e longas jams instrumentais, teve um desses momentos resgatado recentemente, com o lançamento de cd contendo o show realizado no festival Banana Progressiva, realizado em São Paulo, em 1975.

VÍMANA
1977 | Zebra - On The Rocks
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Espécie de ponte entre os anos setenta e oitenta, o Vímana brilhou na cena carioca com seu hard-progressivo. Formado em 1974, contava com Lulu Santos (guitarra), Lobão (bateria), Fernando Gama (baixo) e Ritchie (vocais). Deixaram gravado um compacto, contendo a música Zebra e participaram de discos de outros artistas, destacando-se Luiza Maria e Fagner (nas músicas Riacho do Navio e Antônio Conselheiro, do disco Ave Noturna).

MARCONI NOTARO
1973 | No Sub-Reino dos Metazoários
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Contemporâneo de Lula Côrtes, Zé Ramalho e Lailson, Marconi Notaro gravou o LP 'No Sub Reino dos Metazoários', na linha de obras clássicas como 'Paebirú' e 'Satwa'. Lançado em 1973, e um dos mais raros da discografia nacional, o disco contém peças da mais radical psicodelia nordestina pós-tropicalista. Participam do disco Zé Ramalho, Lula Côrtes, Robertinho de Recife e outros músicos da região.

Crosby, Stills, Nash & Young | Déjà Vú


Para seu segundo álbum, David Crosby (ex-Byrds), Stephen Stills (ex-Buffalo Springfield) e Graham Nash (ex-Hollies) chamaram o amigo Neil Young, que tinha acabado de lançar After the Gold Rush, um dos seus trabalhos mais importantes.

Foram quase 800 horas de gravação, em circunstâncias nada auspiciosas. A namorada de Crosby, Christine Hinton, morreu num acidente de carro em setembro de 1969 - e ele não se recuperou buscando consolo na heroína. Bebidas e cocaína abundavam no estúdio; o grupo brigava o tempo inteiro - o bem humorado Young vivia ausente - e Nash foi forçado a assumir o papel de pacificador. De algum jeito eles acabaram fazendo uma obra-prima que captou o espírito da cultura da Costa Oeste dos EUA no início dos anos 70.

1970 | DÉJÀ VU

01. Carry On
02. Teach Your Children
03. Almoust Cut My Hair
04. Helpless
05. Woodstock
06. Déjà Vu
07. Our House
08. 4 + 20
09. Country Girl
   a. Whiskey Boot Hill
   b. Down Down Down
   c. Country Girl (I Think You're Pretty)
10. Everybody I Love You

"Carry On" é uma maravilha camaleônica, com harmonias arrepiantes, uma das melhores músicas já feitas para curar ressaca na manhã de domingo. "Our House" e "Teach Your Children" comprovam o dom de Nash para fazer melodias simples e cativantes. "Almost Cut my Hair" traz Crosby em sua luta contra o autoritarismo, com sua voz gutural em contraponto às harmonias vocais puras, características do grupo. A majestosa "Helpless" é a homenagem de Young aos amplos espaços abertos de seu Canadá natal, enquanto "Country Girl" é um peça admirável, com arranjos ambiciosos.

Com seus vocais incomparáveis, sua dinâmica musicalidade e perfeita carpintaria das canções, não é de admirar que o álbum tenha sido catapultado ao primeiro lugar nos EUA.

Do livro 1001 Discos para Ouvir antes de Morrer

Arnaldo Baptista | Lóki?


No pop brasileiro, são raros os que driblaram a barreira lingüística e edificaram trabalhos fundamentais. Em meio às síndromes progressivas, à invasão da Nordésia e do "rockão pauleira", no início de 74, o LP em questão surgiu não apenas como antídoto a essas tendências, mas também como uma obra única e radical do rock brasileiro.

Gravado em terríveis condições emocionais - Arnaldo havia perdido Rita Lee para sempre -, após sua saída dos Mutantes, o disco conta, além da participação de três ex-integrantes (o baterista Dinho, o baixista Liminha e Rita nos backing-vocals), com arranjos de Rogério Duprat. A gravação feita às pressas proporcionou um punch inigualável e, dado seu estado emocional, Loki? acabou por ser o maior tratado existencial do rock brasileiro, algo digno do desespero suicida da nouvelle vague, da dolorosa raiva incontida dos angry young men ingleses e de poetas visionários que enxergaram o lado obscuro da realidade.

Arnaldo demonstrou o que significa amar até perder o nome, buscar os paraísos artificiais a partir da desintegração da alma e percorrer os porões proibidos dos sentimentos, dando vazão aos abismos da vida e anunciando esboços da morte tateada, ainda que não consumada. Nessas antevisões, ele já parecia estar ciente das amargas metamorfoses que delineariam seu destino tatuado por uma tentativa de suicídio em 1980, após ter criado a alucinada Patrulha do Espaço.

1974 | LÓKI ?

01. Será que Eu Vou Virar Bolor?
02. Uma Pessoa Só
03. Não Estou Nem Aí
04. Vou Me Afundar na Lingerie
05. Honky Tonky
06. Cê Tá Pensando que Eu Sou Lóki?
07. Desculpe
08. Navegar de Novo
09. Te Amo Podes Crer
10. É Fácil

Se, textualmente, provou genialidade, em nível musical nada deixou a dever; ou seja, a partir de sua voz arrancada do âmago e de um sensível piano de concepção clássica, ele percorre o tecido rock com eclética maestria, indo das mais tristes baladas até progressive rocks, passando por tons de bossa, jazz, funk e blues.

A primeira faixa do LP, a linda rock'n'roll ballad "Será Que Eu Vou Virar Bolor?", usando o título como mote, traça ironicamente um paralelo entre o futuro de seu amor e o do rock'n'roll, ambos ameaçados de extinção. A seguinte "Uma Pessoa Só", arranjada por Duprat, remonta os lindos sonhos dourados de 71/72, quando os Mutantes viviam em comunidade na Serra da Cantareira, numa trip coletiva em que era possível ser "uma pessoa só". "Não Estou Nem Aí" é uma beat-ballad pulverizada por tons bluesísticos/jazzísticos em que, sombreado pela (im)possibilidade de esquecer os "males", ele desafia a morte de forma sarcástica. Em "Vou Me Afundar na Lingerie", um bluesy-popster de primeira linha, instala a evasão absoluta do mundo real "deslanchando bem embaixo" e propondo afogar as mágoas no deslumbre da natureza e na relatividade das pequenas. A instrumental "Honky Tonky" é um delicioso mergulho ao piano.

A segunda face traz a memorável "Cê tá Pensando Que Eu Sou Loki?", esmerado exercício bossístico que desbanca a loucura, mas não exime o prazer pelas viagens. Na baladaça "Desculpe", penetra na angústia passional, um "Jealous Guy" à brasileira, que sentindo "o pulso de todos os tempos" exige o amor a qualquer custo. Na fragmentada "Navegar de Novo", desvenda sua particular "passagem das horas" e as dimensões (im)possíveis do tempo. "Te Amo, Podes Crer", uma balada de amour fou, encarna o pranto de um abandonado que revela: "Dentro de algum tempo eu paro de tocar/espero o apocalipse de então eu te encontrar", um verso que resumiria profeticamente seu futuro. Fechando, a folk-psicodélica "É Fácil", microssíntese do amor absoluto.

Se hoje sua obra é mítica, saiba que Arnaldo pagou muito caro por toda essa paixão levada às últimas conseqüências. "Já leu todos os livros" e sabe que "a carne é triste".

Texto de Fernando Naporano, publicado originalmente na Revista Bizz, Edição 43, de Fevereiro de 1989

Can | Tago Mago

Por que lembrar de tudo isso agora para falar sobre o disco do Can? Bem, primeiro, por razão nenhuma. Ou quem sabe por que todo nerd que se preze deva gostar bastante de ficção científica. Ou talvez por que no continente homônimo da citada lua de Júpiter possamos explorar e encontrar muita coisa que pouco tem a ver com o rock que vem dos países de língua inglesa (EUA e Inglaterra - embora este também seja um país europeu). Do progressivo italiano ao thrash metal alemão, há muito o que saber, se você quer realmente conhecer o rock profundamente.

Bem, mas, das razões citadas, talvez a primeira, a da estranheza, seja mesmo a mais adequada. Por que não há palavra que defina melhor o Krautrock do CAN em "Tago Mago" que "estranho". A banda (à época formada pelo japonês Damo Suzuki, nos vocais, Holger Czukay, no baixo, Michael Karoli, na guitarra e violino, Jaki Liebezeit, na bateria e piano, e Irmin Schmidt, nos teclados), embora hoje quase desconhecida, ousou tudo o que poderia ousar e lançou a base para muito do que viria após, de Radiohead a bandas punk como Sex Pistols.

Tago Mago, o nome do álbum refere-se à ilha de Tagomago, na costa espanhola, cujo significado é Mago das Rochas, referindo-se por sua vez a Mago Barca, irmão de Anibal Barca, general de Cartago que enfrentou os romanos na época das guerras púnicas. A ilha também teria a ver com Aleister Crowley.

1971 | TAGO MAGO

01. Paperhouse
02. Mushroom
03. Oh Yeah
04. Halleluhwah
05. Aumgn
06. Peking O
07. Bring Me Coffee or Tea


Lançado como LP duplo, "Tago Mago" tem um LP mais, digamos, convencional (embora a probabilidade de ouvir qualquer uma de suas faixas em uma rádio convencional), o primeiro e um mais experimental. Fazem parte do primeiro álbum as faixas "Paperhouse", "Mushroom" (a menor do álbum) e "Oh Yeah", de um lado e a longa "Halleluhwah" do outro. O vocal de Suzuki (japonês achado pela banda fazendo apresentações de rua) lembra um pouco de Syd Barret, primeiro vocalista do Pink Floyd. E as canções ajudam essa semelhança a aparecer. Mas é nas partes instrumentais que a banda se sobressai. Longas jams, com guitarras incansáveis, bateria criativa, um convite para farras de noite inteira, regadas a álcool, psicodelia, discos de vinil de rock setentista e resoluções que você nunca vai lembrar quando voltar a ficar sóbrio. "Halleluhwah", apesar da extensão e da bateria ser tocada quase no mesmo ritmo do começo ao fim jamais é cansativa.

Mas é no segundo álbum que o desafio começa. A confusão generalizada em "Augmn" e "Peking O" fazem você querer mudar de faixa. Nada aqui combina com nada. Mas, por incrível que pareça, é tudo de propósito. Se você gosta das faixas mais obscuras de Ummagumma, este segundo vinil (ou estas faixas do CD) é (são) pra você. "Bring Me Coffe or Tea" finaliza toda a viagem, como uma espécie de rendenção. E deixa um vazio. Certamente, você não ouvirá "Tago Mago" e ficará imune. É por isso que o disco figura entre os "1001 discos para ouvir antes de morrer". É, talvez, o mais desafiador dos 1001.

E aqui mais uma semelhança com "2001", o filme. "Augmn" e "Peking O" seriam trilha sonora perfeita para a longa (e difícil de assistir) parte, digamos, cromática do filme. E a sensação após ouvir o álbum inteiramente ou assistir a todo o filme é a mesma.

Em tempo, uma edição comemorativa de 40 anos em CD duplo foi lançada com todas as faixas originais em um CD e versões ao vivo de "Mushroom" e "Halleluwah" mais a faixa de 29 minutos(!) "Spoon", todas de 1972.

Por: Leonardo Daniel Tavares da Silva


David Bowie | Aladdin Sane


David Bowie é 'catapultado' ao mega estrelato ao se reinventar em um personagem fortemente baseado em Marc Bolan e Iggy Pop. A maquiagem já fazia parte do rock, mormente com Marc Bolan, o criador da onda "glitter", mas ninguém havia levado a concepção às últimas conseqüências como Bowie. O sucesso alcançado rende uma excursão americana onde enquanto seu delírio épico Ziggy Stardust, o alienígena andrógino ('bisavô' de Marylin Manson), é reverenciado como "a segunda maior coisa depois de Deus," David Bowie o artista, dentro da sensibilidade que só os artista possuem, traça um perfil da América que ele veio a conhecer. Fortemente influenciado pelo livro "Vile Bodies" de Evelyn Waugh, onde visões de Armageddon, a eliminação da diferença entre os sexos, como também a conquista da vida sobre a morte e sobre o conceito que conhecemos como tempo. Todas as coisas resultam no disco Aladdin Sane.

O álbum teve todas as suas letras escritas durante a excursão americana. A sua banda é essencialmente a mesma com Mick Ronson, na guitarra, Trevor Bolden no baixo e Woody Woodmansey na bateria. No lugar dos teclados de Rick Wakeman, Bowie contrata Mike Garson que no piano, cria climas extraordinários, especialmente para canção título. Contribuem com backing vocals a Linda Lewis, os irmãos MacCormack e Juanita Franklin. Bowie além de cantar e assinar os arranjos, toca violão, teclados, gaita e sax. Ele ainda encontra fôlego para co-produzir o disco ao lado de Ken Scott.

O álbum abre com Watch That Man, que é Bowie claramente bebendo das águas dos Rolling Stones. Um rocker bem empolgante, sua formula com backing vocals e sopros, é demasiadamente parecido com o clima de "Exile On Main Street", que os Stones estão fazendo nesta mesma época. A comparação é inevitável o que não tira o mérito da interpretação bem empostada do cantor.

A próxima faixa é uma obra prima. O título da canção, Aladdin Sane é na verdade um trocadilho com a frase "A lad insane", um rapaz insano. Ao lado do nome, existe três datas em parênteses, 1913 - 1938 - 197?. Os primeiros dois anos tem em comum serem anos vésperas do inicio da Primeira e Segunda Guerra Mundial, respectivamente. É apenas natural supor que a terceira lacuna, especula sem determinar a véspera da Terceira Guerra Mundial.

A canção foi escrita em parte, inspirado no livro "Vile Bodies" de Evelyn Waugh e posteriormente acabou por ditar o estado de espirito de todo o álbum. O livro conta a historia de uma Inglaterra as vésperas de uma guerra fictícia porém abominável. O povo acostumado demais a se preocupar com futilidades como champagne, roupas e festas, está totalmente despreparadas para realidade que virá a tona. De uma hora para outra, as pessoas são jogadas em um holocausto horrendo e lutam para reaprenderem, mesmo que por falta de opção, a viver em um mundo menos galmurosa e mais realista. Bowie percebe uma linha de similaridade com as pessoas do seu tempo, mas em especial, com a América que ele está conhecendo. Como adendo final, Bowie canta o inicio de "On Broadway", clássico dos Drifters de 1960.

1972 | ALADDIN SANE

01. Watch That Man New York
02. Aladdin Sane
03. Drive-In Saturday
04. Panic in Detroit
05. Cracked Actor
06. Time
07. The Prettiest Star
08. Let's Spend the Night Together
09. The Jean Genie
10. Lady Grinning Soul

Drive In Saturday parte do pressuposto, que o povo depois do holocausto, agredido pela radiação que ataca os órgãos sexuais e atrofiam os instintos, acaba por esquecer como amar com relações sexuais. Sobra como opção tentar reaprender assistindo filmes nos drive-ins mundo afora.

Outra faixa, Panic In Detroit nasceu de um bate papo com Iggy Pop, que contava sobre sonhos de rebelião dele, Iggy, e de seus amigos de escola, contra essa cidade. Imagens de jovens entrincheirados com metralhadoras nas mãos, chiclete na boca e uma boina na cabeça sendo encarregados a defender o sonho de derrotar o sistema mesmo que a bala. Depois que Iggy foi embora Bowie escreve a letra imaginando Iggy Pop como um Che Guevara americano, membro da Gangue Nacional do Povo, fazendo bolas de chiclete, dentro de um caminhão à diesel. Mick Ronson nos oferece um ritmo bem pesado, a la Bo Diddley. O suingue nos remete a agressividade quando adiante outra guitarra sua, ultra destorcida, nos chicoteia com dissonâncias criando um clima de frenesi superbo.

Cracked Actor nos apresenta como personagem, um ator envelhecido e decadente, mal intencionado e mercenário.

Na concepção original do álbum, Time abre o segundo lado trazendo de volta Mike Garson com seu piano que nos remete direto para o teatro. Bowie interpreta e questiona no melhor estilo Brecht - Weill, a máxima de Shakespere, ao refletir que o mundo não é um palco e sim o camarim. E ao pisar no palco, o tempo para. A frase (...) demanding Billy Dolls (...), é uma referência a Billy Murcia, baterista do New York Dolls que acabara de morrer em Londres no verão.

Let's Spend The Night Together, canção heterossexual da década de sessenta, apresentada aqui com uma versão espacial e futurista, Bowie parece tentar implicar a idéia de que ela fora composta referindo-se a homossexualidade. Enquanto a banda ataca com pique, ela é instigânte. No final o tempo cai assim como um pouco do interesse.

Jean Genie novamente oferece outra batida e riff de puro Bo Diddley. Uma das melhores músicas do disco justamente pelo riff hipnótico como um mantra e pesado como Ronson sabe ser.

Finalmente fechando, Lady Grinning Soul, em uma das interpretações mais bonitas de David Bowie em toda sua carreira. Essa balada é lindamente arranjada com violões de seis e doze cordas, além de um piano riquíssimo, novamente nas mãos de Garson.

Uma álbum conceitual? Não exatamente. Mas certamente uma experiência musical da qual o ouvinte não conseguirá ficar indiferente. Vale a pena conferir.

Por: Márcio Ribeiro

Kris Kringle | Sodom

Kris Kringle foi um projeto paralelo, um dos nomes de grife usados pelo grupo Memphis, campeão das domingueiras paulistanas no Clube Pinheiros e Círculo Militar em São Paulo, no início dos anos 70. O Memphis começou em 1966 como Bumble Bees e passou pelo Colt 45, mas também usou nomes de grupos fantasmas, como The Fox, Beach Band, Young Fellow, Joe Bridges e Baby Joe.

O Kris Kringle (Papai Noel em alemão) lançou o petardo “Sodom” em 1971. Entre as várias versões de músicas de sucesso, destaque para a versão heavy-psicodélica de "Help", dos Beatles, o progressivo jurássico de "Sarabande" e o som Deep Purple total de "That's my love for you". Tudo no lugar: riffs grudentos, solos sinuosos, bateria acelerada, vocal hard e coruscantes linhas de baixo do virtuose Nescau. E, claro, órgão Hammond sempre na hora certa e na medida. Do primeiro ao último sulco, rock puro na veia!

Um avanço para a época, o LP já foi lançado em estéreo, em ótima produção do mago de estúdio Cesare Benvenuti. Experimente ouvir com fones de ouvido de boa qualidade. Tudo foi gravado, mixado e masterizado (no talo!) à perfeição, no histórico Estúdio Gazeta (Estúdios Reunidos), na Av. Paulista, 900, no quarto andar do prédio da Fundação Cásper Líbero. Diferentemente até de CDs produzidos nos anos 90, o som é forte, redondo, encorpado e tonitruante. Nada de som de radinho de pilha, muito menos bateria de caixinha de fósforos. Meia hora de pau puro, para nenhum headbanger botar defeito!

Pelo grupo, passaram, entre outros: Dudu França (Joe Bridges), bateria e lead vocal; Marcos Maynard (Marcão), guitarra-base, órgão e vocais; Carlos Alberto Marques (Carlinhos), guitarra, saxofone e vocais; Juvir Moretti (Xilo), guitarra-solo e vocais; Marco Antônio Fernandes Cardoso (Nescau), baixo e vocais; e Otávio Augusto Fernandes Cardoso (Otavinho), guitarra-base, teclados e vocais.

1971 | SODOM

01. Louisiana
02. Help
03. That's My Love for You
04. The Resurrection Shuffle
05. Janie Slow Down
06. Susie
07. The Monkey Song
08. Sarabande
09. Mr. Universe
10. What You Want

Sodom é um lugar de confusão, cenas de tumulto, confusão e gritaria. Homem maluco ou lunático sem ordem! No conceito de Kris Kringle, a palavra recebe um novo e diferente sentido. Sodom vem a ser o som de duas vozes, Kris Kringle e Joe Bridges; separadamente explosivas e, quando juntas, incomparáveis.

Sodom são as cordas da guitarra, movidas ferozmente por Mark Kringle. Sodom é o movimento de Joe Bridges, que não toca, mas ataca sua bateria. Sodom é você, a audiência acompanhando o ritmo com as mãos, deixando-os juntos nesse palpitante ritmo, e seus pés acompanhando com a dança, porque o som os força a isso.

Enfim, Sodom é o agradável trabalho, excitação e exaustão que entram na criação de um LP que não é um LP, mas um ato final num longamente esperado sonho. É a criação de seis rapazes guiados por seu produtor. (Trad. Peja Prod.)


O encarte viajandão parece usar linguagem cifrada. Além disso, finge, na maior caradura, ser tradução de um suposto original em inglês. As ilustrações também são totalmente psicodélicas, "mutcho lôkas" mesmo, condizentes com a viagem musical proposta pelo disco. O álbum, disputado a tapa nos sebos nacionais e internacionais por até US$ 300, teve bastante repercussão, pois mereceu uma segunda edição em 1972, e até um single lançado na França.

Por: Silvio Atanes


Caetano Veloso | Transa

Após dois anos de exílio em Londres, Caetano Veloso via-se imerso na angústia que as saudades do Brasil provocavam. Exilado, no ano de 1969, em companhia do seu amigo, também músico, Gilberto Gil, o cantor sentia saudades do solo brasileiro. Saudades, sobretudo, da sua triste Bahia.

Intitulado Transa, o disco retrata nada mais nada menos que saudosismo – meio carregado de pessimismo, meio de esperança. Apesar do imenso desejo de retornar a sua terra natal, Caetano sentia-se consumido pelo pensamento de que, possivelmente, não poderia regressar ao Brasil tão cedo devido ao momento político que o país vivia: a ditadura militar. Instaurada em 1964 sob o comando dos militares, a ditadura instalava a repressão contra toda e qualquer ideia que contestasse o seu regime.

A MPB (Música Popular Brasileira), estilo musical que surgia nesta década, tinha Caetano como um dos seus fundadores. Estilo este que tinha como grande característica, liricamente, a conscientização social e ativismo político - o que irritava os militares do período. Como grande contestador político, Caetano Veloso chegou a ser confundido com um militante de esquerda, ganhando, assim, a inimizade do regime militar brasileiro.

A “transa” aconteceu em Londres, e foi o segundo disco do cantor baiano em terras inglesas. Depois do segundo álbum autointitulado, lançado em 1971, chegou a hora da transação. Antes, contudo, Caetano passava por um momento de melancolia – melancolia essa retratada em sua expressão facial no seu homônimo gravado na Inglaterra. O momento era de desmotivação para o estrangeiro que não sentia vontade de cantar ou gravar discos, mas a estagnação durou pouco.

Em janeiro de 1971, Caetano Veloso obteve autorização para assistir a missa de celebração de 40 anos de casamento dos seus pais no Brasil. De volta à Inglaterra, deparou-se com o reggae, em Portobelo Road e apaixonou-se; a melancolia e a depressão pelo o exílio iam deixando-o, a visita ao seu país natal foi o suficiente para revigorá-lo. Caetano sentia-se pronto para gravar um novo disco, e influenciado pelo reggae dos jamaicanos residentes na Inglaterra, e pelos estilos brasileiros que amava: baião, samba e bossa nova; formulou um disco rico no que se diz respeito à musicalidade.

Transa funcionou como um intermediário entre o Brasil e a Inglaterra, entre a Bahia e Londres. Em Transa, o estrangeiro diz para o inglês “You Don't Know Me”, orgulha-se de ser da Bahia e sauda as regiões do país que tanto ama – dá um “abraçaço” na cultura Brasileira e a interliga com o reggae de Portobelo, e o rock 'n' roll de bandas como The Beatles e The Rolling Stones.

A nomeação do disco se deu em referência a gíria que eclodia no país. "Transa" era sinônimo de relação sexual, mas também era “transa” de transação, era “transa” da rodovia Transamazônica que estava sendo construída no país na sua passagem pelo Brasil.

A primeira faixa do disco,“You Don't Know Me”, contava com a participação de Gal Costa, que foi à Inglaterra de encontro aos amigos exilados. Cantou a primeira estrofe da canção “Saudosismo”, a mais representativa da composição, diga-se de passagem, da autoria de Caetano, e presente no homônimo da cantora de 1969. A música retrata um estrangeiro que não conhece ninguém no país em que agora reside. No começo, Caetano parece dialogar com um inglês, depois de declarar-se solitário, o cantor baiano assume sua brasilidade e canta o orgulho que sente de sua terra.

1972 | TRANSA

01. You Don't Know Me
02. Nine Out of Ten
03. Triste Bahia
04. It's a Long Way
05. Mora na Filosofia
06. Neolithic Man
07. Nostalgia (That's What Rock'n Roll Is All About)


"Nine Out Of Ten” ilustra as primeiras batidas de reggae escutados fora da Jamaica, em Portobelo Road, na Inglaterra - canção que, segundo o compositor, sente orgulho por ter sido, de fato, a primeira música brasileira a incorporar elementos de reggae. Caetano deixa claro: “I'm alive and vivo, muito vivo, vivo, vivo...”, ouvir a música dos jamaicanos em Portobelo Road dava a Caetano alegria de viver.

“Triste Bahia” agrega alguns versos do poema homônimo da autoria de Gregorio de Matos, poeta baiano, e nela é adicionada outros versos da autoria do cantor. “Triste Bahia” retrata de forma mais intensa as saudades que sentia da Bahia, nela Caetano frisa a beleza tão peculiar da sua terra natal - outro ponto forte da canção é a forma que ele retrata a cultura africana, algo que, claramente, emociona o exilado.

“It's A Long Way” é talvez a canção do disco que apresenta mais momentos diversos ao ouvinte, uma vez que apresenta muitas variações ao decorrer dos seis minutos da faixa. Cheia de referências, tais como “Consolação” de Baden Powell e Vinicius de Morais, “Sôdade, meu bem, sôdade” do paraibano Zé do Norte, a canção “A Lenda do Abaeté”, do baiano Dorival Caymmi, e “Água com Areia” de Jair Amorim e Jacobina. Em “Arrenego de quem diz/Que o nosso amor se acabou/Ele agora está mais firme/Do que quando começou”, Caetano afirma que apesar de distante, o amor por sua terra natal ainda permanece vivo.

Em “Mora Na Filosofia”, regravação de um samba de Monsueto Menezes, o baiano chora. “Mora na filosofia/ Pra quê rimar amor e dor?”, Caetano Veloso transformava um samba carioca em uma balada inglesa de caráter misantrópica. As duas menos emocionalmente impactantes, mas não mais fracas por isso, “Neolithic Man” e “Nostalgia (That's what rock'n'roll is all about)” bebem mais na fonte das influências inglesas de Caetano que nos estilos e ritmos de música brasileira que tanto ama. O experimentalismo em “Neolithic Man” faz com que ela se pareça a música mais confusa e diferente do disco, enquanto que a última é um rock-blues e mostra influências claras de bandas como The Beatles e The Rolling Stones.

Transa, alcançou o status de não apenas o-melhor-disco-de-Caetano, mas também o status de um dos melhores (e inovadores, diga-se de passagem) discos da música brasileira. “Transa” representou a transa da Bahia com Londres, do Brasil com a Inglaterra. Contou a história de um exilado conformado, que gosta de Londres, aprecia a sua grama verde, mas que sente saudades do seu baião, do seu tropicalismo, da sua Maria Bethânia, e, sobretudo, da sua Triste e dissemelhante Bahia.

Por: Marie Helene de Oliveira