Can | Tago Mago

Por que lembrar de tudo isso agora para falar sobre o disco do Can? Bem, primeiro, por razão nenhuma. Ou quem sabe por que todo nerd que se preze deva gostar bastante de ficção científica. Ou talvez por que no continente homônimo da citada lua de Júpiter possamos explorar e encontrar muita coisa que pouco tem a ver com o rock que vem dos países de língua inglesa (EUA e Inglaterra - embora este também seja um país europeu). Do progressivo italiano ao thrash metal alemão, há muito o que saber, se você quer realmente conhecer o rock profundamente.

Bem, mas, das razões citadas, talvez a primeira, a da estranheza, seja mesmo a mais adequada. Por que não há palavra que defina melhor o Krautrock do CAN em "Tago Mago" que "estranho". A banda (à época formada pelo japonês Damo Suzuki, nos vocais, Holger Czukay, no baixo, Michael Karoli, na guitarra e violino, Jaki Liebezeit, na bateria e piano, e Irmin Schmidt, nos teclados), embora hoje quase desconhecida, ousou tudo o que poderia ousar e lançou a base para muito do que viria após, de Radiohead a bandas punk como Sex Pistols.

Tago Mago, o nome do álbum refere-se à ilha de Tagomago, na costa espanhola, cujo significado é Mago das Rochas, referindo-se por sua vez a Mago Barca, irmão de Anibal Barca, general de Cartago que enfrentou os romanos na época das guerras púnicas. A ilha também teria a ver com Aleister Crowley.

1971 | TAGO MAGO

01. Paperhouse
02. Mushroom
03. Oh Yeah
04. Halleluhwah
05. Aumgn
06. Peking O
07. Bring Me Coffee or Tea


Lançado como LP duplo, "Tago Mago" tem um LP mais, digamos, convencional (embora a probabilidade de ouvir qualquer uma de suas faixas em uma rádio convencional), o primeiro e um mais experimental. Fazem parte do primeiro álbum as faixas "Paperhouse", "Mushroom" (a menor do álbum) e "Oh Yeah", de um lado e a longa "Halleluhwah" do outro. O vocal de Suzuki (japonês achado pela banda fazendo apresentações de rua) lembra um pouco de Syd Barret, primeiro vocalista do Pink Floyd. E as canções ajudam essa semelhança a aparecer. Mas é nas partes instrumentais que a banda se sobressai. Longas jams, com guitarras incansáveis, bateria criativa, um convite para farras de noite inteira, regadas a álcool, psicodelia, discos de vinil de rock setentista e resoluções que você nunca vai lembrar quando voltar a ficar sóbrio. "Halleluhwah", apesar da extensão e da bateria ser tocada quase no mesmo ritmo do começo ao fim jamais é cansativa.

Mas é no segundo álbum que o desafio começa. A confusão generalizada em "Augmn" e "Peking O" fazem você querer mudar de faixa. Nada aqui combina com nada. Mas, por incrível que pareça, é tudo de propósito. Se você gosta das faixas mais obscuras de Ummagumma, este segundo vinil (ou estas faixas do CD) é (são) pra você. "Bring Me Coffe or Tea" finaliza toda a viagem, como uma espécie de rendenção. E deixa um vazio. Certamente, você não ouvirá "Tago Mago" e ficará imune. É por isso que o disco figura entre os "1001 discos para ouvir antes de morrer". É, talvez, o mais desafiador dos 1001.

E aqui mais uma semelhança com "2001", o filme. "Augmn" e "Peking O" seriam trilha sonora perfeita para a longa (e difícil de assistir) parte, digamos, cromática do filme. E a sensação após ouvir o álbum inteiramente ou assistir a todo o filme é a mesma.

Em tempo, uma edição comemorativa de 40 anos em CD duplo foi lançada com todas as faixas originais em um CD e versões ao vivo de "Mushroom" e "Halleluwah" mais a faixa de 29 minutos(!) "Spoon", todas de 1972.

Por: Leonardo Daniel Tavares da Silva


Nenhum comentário: